Mouchão

 

Máquina de Escrever

Herdade do Mouchão

Foi no Alentejo que a família Reynolds encontrou o lugar certo para desenvolver os negócios da cortiça e do vinho. Hoje, a Herdade do Mouchão é uma das mais emblemáticas propriedades a nível nacional.  

Associados ao nosso país desde meados do século XVIII, a família Reynolds – negociantes ingleses de Maidstone e Chatham – compravam e vendiam diversos tipos de produtos, entre os quais vinhos, frutas, madeiras, lã, trigo, sal e cortiça. 

Terá sido entre 1824 e 1826 que Thomas Reynolds e sua mulher, Marion Hunter, terão vindo para Portugal, primeiro para a cidade do Porto, e só mais tarde para o Alentejo. Esta deslocação foi o resultado de uma sociedade entre Thomas e um cunhado, empresário escocês, também ele negociante em vinhos. 

A família vai crescendo e os negócios vão-se desenvolvendo ao longo das décadas. Terá sido um dos seus descendentes, John Reynolds, quem adquire a Herdade do Mouchão. No entanto, documentos familiares revelam que anteriormente já existia um contrato de aluguer de longa duração para os montados de sobro. No que diz respeito ao vinho, a adega foi mandada construir em 1901. 

Por via de casamento, John Reynolds foi também proprietário da Quinta do Carmo, situada a poucos quilómetros de Estremoz, investindo largamente na vinha, tal como fez no Mouchão. Os encepamentos de Alicante Bouschet, na época uma inovação, eram utilizados exclusivamente nestas duas propriedades alentejanas, havendo facturas antigas que comprovam que o Mouchão enviava vinho para ser engarrafado na Quinta do Carmo. 

O Mouchão é mais tarde herdado por Albert Reynolds, seu irmão, que engarrafa oficialmente o vinho, pela primeira vez, em 1954 (embora em 1949 já se tenha engarrafado, a título experimental)

Advogado de profissão, Albert Hugh dividia o seu tempo entre uma ocupada e promissora carreira em Lisboa e as vinhas do Mouchão. Na época, a casa térrea, tipicamente alentejana, era apenas utilizada para passar temporadas, especialmente na época de caça, altura em que gostava de receber amigos. Mas o vinho nunca foi descurado. Sempre atento ao que se passava no Mouchão, onde se deslocava frequentemente, era um homem que percebia da vinha e era exigente quanto à qualidade dos vinhos ali produzidos.

O seu lado culto, distinto e generoso era apreciado por todos. Um dos seus empregados mais antigos, o adegueiro João Piteira, mais conhecido por João Alabaça, foi seu grande companheiro. De estatura média e corpo robusto, era o seu braço direito, o homem em quem depositava toda a confiança. Tinha apenas catorze anos quando começou a trabalhar na propriedade e herdou o lugar do seu pai, que ali exercia a mesma função. Hoje é o seu filho João Manuel quem, desde 1996, gere a adega. 


Um vinho apetecível 

Apesar do grande investimento realizado na propriedade, Albert sentia que o vinho não rendia os lucros esperados. Decidiu então guardá-lo, durante cerca de três ou quatro anos, em barrica, e só a seguir engarrafá-lo para poder vendê-lo um pouco mais caro. A medida não podia ter sido mais acertada. O segredo era ‘esperar pelo vinho para obter maior consistência e carácter’. Descoberta a fórmula do sucesso, a estratégia foi imediatamente adoptada para vinhos futuros. 

Após a revolução de Abril de 1974, o ano seguinte foi turbulento, marcado pelo movimento da reforma agrária. A seguir à Páscoa de 1975, a Herdade do Mouchão foi ocupada pelos trabalhadores rurais. Despojado das suas terras, Albert pediu ao adegueiro João Piteira para permanecer no seu posto, no intuito de controlar a tão preciosa qualidade do vinho. A ocupação não foi violenta. Os homens continuaram a trabalhar a terra, continuou a produzir-se vinho, e foi assim que surgiu a Cooperativa 25 de Abril Mouchão e Anexos. Uma época difícil, onde muito do vinho armazenado foi vendido ao desbarato, excepto a garrafeira particular de Albert, que o adegueiro protegeu honradamente.

A recuperação da propriedade acontece em 1984, ano em que é lançado o vinho D. Rafael, em homenagem ao pai de Albert. Por influência de Martin (filho mais velho de Albert), também se começa a engarrafar o vinho D. Cristina, em honra da avó. Este último singra apenas durante três ou quatro anos, deixando de ser produzido devido a alguma falta de consistência.

Após a morte de Albert, em 1986, o Mouchão é adjudicado em partilhas a favor das filhas Ann e Elizabeth. Enquanto a filha mais nova se adaptou facilmente aos bons ares do campo, morando no Mouchão desde 1997, Ann preferiu vender a sua parte à irmã e, em 2000, partiu para Inglaterra. 

Elizabeth, ou ‘D. Babete’, como é carinhosamente chamada pelos empregados do Mouchão, casou com o escocês Iain Richardson, também ele um apaixonado por vinho e pela propriedade, do qual foi gestor durante vários anos. Actualmente, quem está à frente da gestão do Mouchão é o seu filho, com o mesmo nome do pai, Iain Richardson. 


A casta que marca a diferença

A diferença dos vinhos da Herdade do Mouchão define-se através da casta Alicante Bouschet, de um «terroir» muito próprio e de uma vinificação tradicional adequada.

Amada por uns e detestada por outros, esta casta, de origem francesa, é a variedade tintureira mais divulgada em todo o mundo. É o resultado dos estudos levados a cabo por Louis Bouschet Bernard que, em 1824, decidiu cruzar várias castas que deram origem a variedades capazes de fazer vinhos de cor profunda e produções mais elevadas, suplantando as tintureiras até então existentes. Destaca-se destas experiências a casta Petit Bouschet, resultante de um cruzamento entre Aramon e Tenturier du Cher. Mais tarde, entre 1865 e 1885, Henry – filho de Louis Bouschet – cruzou a Petit Bouschet com a popular Grenache, dando origem a uma nova tintureira, que designou por Alicante Bouschet.

O êxito desta variedade foi imediato e isso estava directamente relacionado com a cor intensa dos vinhos que originava e com a elevada capacidade produtiva. Varas de Alicante Bouschet começaram a ser requisitadas nas mais variadas zonas vitivinícolas de todo o mundo, como na Califórnia, onde se tornou muito popular durante a época da lei seca. No início da década de 60, era já a quarta variedade tinta mais utilizada mundialmente, em termos de área plantada, apesar de, em 1982, uma redução de 2.656 hectares a ter colocado praticamente na cauda da lista.

Os vinhos obtidos a partir desta casta aparecem sempre descritos como tendo fraco carácter e personalidade, pouco estruturados e com cor profunda, embora por períodos curtos. Um facto que está de acordo com o que muitos autores referenciam para as castas tintureiras, consideradas apenas um complemento de adição de cor a vinhos mais jovens, sem grande expressão qualitativa. Parece estranho, depois de toda esta descrição, como pode a casta Alicante Bouschet ter assumido tão grande protagonismo na diferenciação dos vinhos da Herdade do Mouchão.

O comportamento das castas está muito condicionado por um conjunto de factores que determinam a sua produção qualitativa e quantitativa, integradas em elementos como o solo, a disponibilidade de água, as temperaturas, o número de horas de sol, entre outros factores. Nas condições climatéricas da região transtagana, com Invernos frios e Verões quentes e secos, a casta tem um abrolhamento precoce. Quando plantada no solo adequado, solos profundos, com alguma riqueza nutricional e disponibilidade de água ao longo do ciclo – ao contrário do que acontece na maioria das vinhas –, a Alicante Bouschet mostra tendência para um ciclo mais longo, capaz de levar à produção de uvas que originam vinhos de graduações alcoólicas elevadas, grande concentração de taninos, bom equilíbrio de acidez e enorme capacidade de envelhecimento. Tudo isto aliado a uma cor profunda e intensa, que se mantém de forma duradoura.

Surge-nos, por isso, uma Alicante Bouschet modificada, capaz de se tornar importante complemento de qualidade dos vinhos da região do Alentejo, onde é largamente utilizada em percentagens que, regra geral, se situam entre os cinco e os trinta por cento, apesar da incredulidade de muitos técnicos estrangeiros, especialmente franceses. Na Herdade do Mouchão, a dependência relativamente a esta casta é ainda maior, uma vez que representa actualmente cerca de setenta por cento do total das castas tintas implantadas, marcando de forma inquestionável a personalidade dos seus vinhos. Além disso, a influência do local onde crescem as vinhas acentua e diferencia o perfil da casta.

Um terroir que impõe a distinção

A Herdade do Mouchão possui várias vinhas distintas, num total de 38 hectares: Vinha dos Carrapetos, Vinha da Barragem, Vinha do Mouchão Velho, Vinha da Adega e Vinha da Dourada. É na primeira, a maior, que têm origem os vinhos Mouchão. Ela encontra-se a cerca de um a dois metros abaixo do nível normal dos solos da herdade e os seus pés de vinha crescem ao longo de um vale de aluvião, muito alongado, protegidos nas zonas laterais por uma espécie de taludes naturais. Esta topografia cria uma zona climatérica distinta que condiciona o desenvolvimento das plantas e a maturação das uvas. Manhãs mais frescas e finais de tarde mais quentes, criam ao longo da maturação condições de desenvolvimento qualitativo da variedade.

Os solos de aluvião desta várzea geram condições nutricionais mais atractivas para um bom desenvolvimento do Alicante Bouchet, que não gosta de solos pobres. Na linha do horizonte, também ali encontramos uma concentração de argila relativamente elevada que permite a retenção e a disponibilidade de água ao longo de todo o ciclo, tornando desnecessário qualquer sistema de rega (todas as outras vinhas da Herdade do Mouchão são irrigadas). Tudo isto, aliado a um conjunto de horas de sol elevado, faz com que o Alicante Bouschet produzido nestas condições seja único.

No Mouchão, a palavra de ordem é a preservação das técnicas de vinificação tradicionais. Sem qualquer desengace, as uvas são fermentadas em lagares e pisadas a pé. Após um período de quatro a seis dias, o vinho é trasfegado para tonéis de grandes dimensões – que comportam entre dois mil e quinhentos a cinco mil litros – onde vão iniciar a sua maturação. Estes tonéis, velhos de muitos anos, são cuidadosamente conservados para continuarem a desempenhar a sua função. Feitos de carvalho, mogno e macacauba, não têm como objectivo dar um carácter de madeira aos vinhos, mas sim permitir que os taninos possam ir evoluindo de forma lenta, tornando os vinhos mais suaves e elegantes.

Os Mouchões repousam nestes tonéis durante dois anos, até atingirem um equilíbrio que permita o seu engarrafamento, aguardando depois mais dois anos em garrafa, para se revelarem. São vinhos de características diferenciadas e há que ter tempo e paciência, para que possam surgir equilibrados e elegantes.

De cor profunda, característica que mantém ao longo dos anos, exibem inicialmente um aroma onde se distinguem notas de eucalipto, menta e hortelã-pimenta, mesclados com compotas de frutos negros, evoluindo depois em complexidade e concentração com os anos. Na boca são macios, muito frescos, e a estrutura marcante assenta em taninos, largos e rugosos, que lhe conferem uma longa persistência e lhe asseguram uma enorme capacidade de envelhecimento.


Destaques