George Sandeman

 

Máquina de Escrever

George Sandeman

É um dos mais conhecidos nomes do mundo do vinho, premiado nacional e internacionalmente, e detentor de diversos cargos de prestígio, entre os quais membro da administração da Sogrape e Chanceler da Confraria do vinho do Porto. 

É de uma família tradicionalmente ligada ao vinho. Sentiu-se na obrigação de seguir o mesmo caminho, ou foi mesmo porque começou a gostar desta área? 
Nasci em Londres, em setembro de 1953, porque a minha mãe se encontrava lá. A minha mãe era Valdespino, descendente da família de D. Alonso Valdespino, um dos 24 Cavaleiros que acompanharam o rei Afonso X na libertação de Jerez de la Frontera em 1264. A família Valdespino era produtora de Vinho de Jerez-Sherry-Xeres. O meu pai pertenceu à sexta geração da família Sandeman, descendente do George Glas Sandeman, fundador da empresa George G. Sandeman em Londres, que adquiriu o negócio de vinho fundado em 1790. Sendo o primogénito da minha família e sétima geração desde a fundação da Sandeman, sempre senti uma forte ligação ao vinho. Desde cedo que é muito natural para mim entrar e visitar as bodegas, em Jerez. Inclusive, lembro-me bem de, com 5 anos, ir de carro desde Inglaterra com o meu avô para fazer uma visita às bodegas. Tenho até fotografias com os meus dois avôs – Patrick Sandeman e António Valdespino – na entrada da Bodega Sandeman. Tinha alguma graça o facto de as duas Bodegas serem vizinhas. Na minha infância, foram muitos os verões nos quais fiquei em casa dos meus avós Valdespino e caminhava a pé até à Sandeman, passando sempre pela porta de Valdespino. Na Bodega Sandeman circulava completamente à vontade, tinha 8 ou 9 anos, e aprendia com os homens que tratavam das soleras de vinho.  O meu local favorito tornou-se a linha de engarrafamento onde, com 10 anos, passava dias a desempenhar uma função fixa, algumas vezes no engarrafador manual, outras na rotuladora ou lavadora de garrafas.  Quando fiz a primeira visita a Portugal, ao Porto, com 10 anos, vindo de carro com o meu pai e irmão mais pequeno, já estava completamente encaminhado para seguir o meu pai no negócio do vinho. Nessa altura não me ocorreu sequer ‘fugir’, pois essa seria uma responsabilidade que vinha com o privilégio de ser descendente de dois grandes nomes da história do negócio de vinho. Contudo, e já com uns 17 anos, sugeri ao meu pai não entrar na empresa assim que terminasse a escola e ele ficou furioso! Foi a pior discussão que tivemos na vida! De facto, demorei uns seis anos, entre estágios e outros trabalhos, até assumir um lugar no departamento de exportação em Londres em 1977.

Recorda-se do primeiro vinho que bebeu? Onde e com que idade? 
Não me lembro, mas sei que foram gotas de Vinho do Porto colocadas nos meus lábios pelo meu avô Patrick, na ocasião do meu baptizado! O primeiro vinho que me lembro mesmo de provar foi um Sherry da Sandeman chamado Armada Cream, um lote de Oloroso com Pedro Ximenez. Eram outros tempos e fazia parte da educação dos filhos ensinar-lhes a beber bem. Quer dizer, desfrutar e não abusar, pois isto foi cedo. Lembro-me de aos 10 anos o meu pai, em Jerez, me dizer que já tinha idade para beber Fino (o Sherry mais seco de todos), e que tinha que deixar o Cream, pois era para senhoras e crianças! Curiosamente, foi nessa também altura que a empresa Londrina mudou de casa e, portanto, ajudei o meu pai a desmontar a sala de provas da companhia. Eram centenas as amostras de Vinho do Porto vindas desde Gaia para Londres e que ali estavam para aprovação dos lotes. Foi assim que aprendi os princípios do Vinho do Porto: as diferenças entre Ruby e Tawny, entre 20 e 30 Anos, entre Ruby jovem e Vintage jovem. Conheci também os princípios do blending pois, após selecionar as amostras, tivemos que as lotear numas garrafas ‘tregnum’ (2.25L) para levar para casa. Recordo-me bem de uma situação com o meu avô, numa viagem de Inglaterra para Jerez, em que parámos em Rioja para almoçar numa taberna e foi umas das poucas vezes em que almocei à mesa (e não na cozinha com o motorista). Sem eu saber, o empregado perguntou ao meu avô se eu bebia água ou vinho e a indicação dele foi para misturar os dois. Quando o meu ‘vinho’ foi servido, provei e rejeitei dizendo ao meu avô que estava aguado. Ele ficou muito impressionado, mas não mudou a instrução!

Quem é que mais o entusiasmou a seguir o caminho profissional do vinho? Teve algum mestre?
Penso que tive sorte. Ao longo dos primeiros anos, nos estágios que fiz em Portugal e Espanha, conheci pessoas excecionais que faziam parte do mundo do vinho e que me influenciaram muito. Algumas ainda estão por cá mas, sem dúvida, o mundo é hoje muito diferente. Contudo, posso dizer que quem mais me influenciou foi Hugo Ungricht, um suíço que adoptou Jerez como terra natal. Foi durante muitos anos Diretor Geral da Sandeman e, durante a Guerra Civil Espanhola, o fiel depositário da empresa. Sendo suíço, os espanhóis não lhe podiam tocar. O Hugo ensinou-me a importância de ter valores no trabalho e de tratar os colaboradores da empresa como pessoas. Tinha o hábito de ser o primeiro a chegar de manhã, fazia uma ronda à bodega e cumprimentava cada pessoa com quem se cruzava dizendo o seu nome – falamos de mais de uma centena de trabalhadores! Foi duro e exigente comigo, ensinou-me o que é a disciplina e como liderar, e assegurou-se que eu aprendi os mistérios do vinho de Jerez. Já no Porto, a minha grande influência no que diz respeito à forma de desfrutar o vinho do Porto foi Robin Reid. Eu tive a sorte de ser convidado regular na casa do Robin e da Elsa quando estagiei no Porto, não só porque eram muito divertidos e serviam excelentes vinhos do Porto, mas também porque tinham uma família de quatro filhas encantadoras! Na sala de provas em Gaia, uma referência incontornável foi o meu grande amigo Eduardo da Costa Seixas, que sempre me guiava nos aromas do Vinho do Porto, chamando a atenção que o aroma é mais importante que a cor.  Foi provador na Sandeman durante muitos anos e continua a produzir vinho do Porto na Quinta de Santa Júlia, no Douro. Quando comecei em Londres, recordo-me também de ter aprendido um truque para decantar vinhos velhos, usando um copo para separar os sedimentos. O truque era do chefe do escritório, Laurie Harvey, e ainda hoje o faço!

Qual é o vinho que lhe falta ainda beber? 
Ao longo da minha carreira tenho tido a sorte de trabalhar ou viajar para as grandes regiões clássicas, e também novas, e de trabalhar para empresas que me permitiram provar vinhos desde o mais especial ao mais banal. Gosto de todos os vinhos, de todas as partes do mundo. Prefiro os bons aos maus, e sempre excepcionais pela qualidade, pela companhia, pela comida ou ocasião. Felizmente para mim, não tenho um vinho especial que gostava de ter provado, portanto, ainda não o fiz, embora sem dúvida haja alguns vinhos que gostava de ter a oportunidade de provar outra vez!

Em 2015 foi premiado pela OIV pelo trabalho desenvolvido pela Wine in Moderation, uma iniciativa pedagógica que apela ao consumo saudável e responsável do vinho. Como surgiu a ideia de desenvolver este trabalho?
O programa ‘Wine in Moderation’ foi concebido para incorporar uma vertente de instrução sobre a melhor forma de desfrutar o vinho nas áreas do marketing e comunicação do sector. Esta iniciativa teve como base o princípio de ‘beber bem – desfrutar e não abusar’ – já defendido no passado.  Inicialmente, um consumidor de vinho deveria aprender a beber e a diferenciar os tipos de vinho, ou até as regiões de produção, algo que foi simplificado pela popularização das variedades Cabernet / Chardonnay que, de certa forma, democratizaram o consumo para uma audiência que descobriu não ser necessário saber para beber. Este acesso mais fácil do consumidor encorajou os produtores a também simplificarem as suas mensagens e a deixarem de incluir informação sobre ‘beber bem – desfrutar e não abusar’. Isto, juntamente com os movimentos contra o consumo de bebidas alcoólicas, levou os produtores europeus de vinhos a unirem-se e a lançar o ‘Wine in Moderation’. Lançado oficialmente em 2008, o movimento de responsabilidade social conta com 20 organizações membro, activas em 11 países na Europa e América Latina. Prevê-se que, durante 2017, a iniciativa se estenda a mais 3 países. 

É presidente da Confraria do Vinho do Porto. Confesse: apesar de gostar de todos os estilos de Porto, existe algum que o apaixone mais?
Como Chanceler da Confraria do Vinho do Porto tenho alguma responsabilidade em manter as boas práticas e as tradições inerentes ao vinho do Porto. Mas, curiosamente, o Porto é um vinho de inovação. Criado através da nova prática enológica de adição de aguardente durante a fermentação, há inovação ao longo da sua historia, desde os lotes ao vintage de ano único, da classificação de tawnies velhos com ano ao LBV ou aos brancos velhos com ano, todos são evoluções do original, e até o rosé pode ser considerado inovação! Para mim, sem dúvida que o vinho do Porto não só é um vinho de inovação, mas também de estilo, com aromas e sabores diversos, e cores que vão de púrpura intenso ao tawny mais dourado. É por isso difícil decidir um estilo que mais me apaixona, e é algo que depende muito do contexto, do momento, da ocasião, da comida ou da companhia. Gosto de um bom vintage velho (bem decantado), um vintage novo, fresco, um 20 Anos em cocktail ou um Porto Reserva todos os dias! Não sei porque será, mas tenho preferência pelo estilo de Sandeman! (risos)

Como membro da administração da Sogrape, uma das empresas de vinho mais reconhecidas a nível nacional, como vê o futuro dos vinhos portugueses? O que falta para conquistar o consumidor lá fora?
Depois de trabalhar 20 anos com a empresa Canadiana Seagram, quando detinham a Sandeman, e tendo passado pelas suas empresas nos Estados Unidos, sem dúvida que não podia ter entrado numa melhor casa de vinho do que a Sogrape Vinhos. Com a mais reconhecida marca portuguesa do mundo, Mateus Rosé, a Sogrape Vinhos sempre teve vinhos que eu admirava e consumia antes mesmo de ser convidado para a Administração. Não há dúvida que os vinhos Portugueses têm atingido níveis de qualidade e imagem bem altos e reconhecidos em muitas partes do mundo. Já não é só pela notoriedade do vinho do Porto, agora é também pela fama dos vinhos do Douro e da região dos Vinhos Verdes. Pouco a pouco, a onda cresce. Não é fácil, pois Portugal nunca poderá ser produtor de volume, por isso o consumidor precisa de se convencer que o vinho Português é maior em valor. Antigamente era assim que os negócios se construíam, com qualidade e reputação, com a imagem valorizada, e consumidores fiéis e respeitados. E é esta a postura que vai diferenciar os vinhos portugueses dos milhares de outros vinhos que são produzidos e vendidos. O vinho a copo é também uma excelente forma de introduzir os milhões de pessoas que visitam Portugal ao mundo do vinho. É na restauração que o vinho português tem maior capacidade para converter os turistas que passam dias em Portugal em autênticos embaixadores para vida. 

CAIXA
George Sandeman é um nome incontornável no mundo dos vinhos, tendo já recebido diversas distinções nacionais e internacionais e assumido diversos cargos de prestígio. Alguns deles, prevalecem. Actualmente, é membro do Conselho de Administração da Sogrape, bem como responsável pelas relações públicas e pela representação institucional desta empresa.  É Presidente do Wine in Moderation Aisbl, em Bruxelas, assumindo responsabilidade pelo programa Europeu do Sector do Vinho que promove a cultura do consumo moderado e responsável. Enquanto Vice-Presidente do CEEV – Comité Vins, George preside o Comité de Social Aspects.  Em Portugal, George é também Presidente da ACIBEV, Associação de Vinhos e Espirituosas de Portugal, é membro do Conselho Consultivo do IVV (Instituto da Vinha e do Vinho) e Chanceler da Confraria do Vinho do Porto.  


Destaques