Luís Pato

 

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Luís Pato, um produtor de referência

É oriundo de uma conhecida família de produtores bairradinos. Não é por isso de estranhar que tenha continuado a missão dos seus antepassados, sendo hoje um dos produtores de vinho mais conhecido quer a nível nacional, como internacional. Irreverente, por vezes polémico, Luís Pato não tem papas na língua quando toca a defender o que é nosso.  

O seu primeiro vinho foi bebido com que idade? 
Como nesse tempo não havia a lei que proibía os jovens de beberem antes dos 18 anos… talvez tenha dedilhado o meu primeiro vinho aos 15 anos. Dedilhado, porque era só chupar o dedo molhado com vinho!

Além da Baga – já sabemos que é um grande defensor e apreciador da casta – quais são as outras variedades que gosta?
Na Bairrada, terra de vinhos brancos e espumantes, gosto da casta Bical, mas também da casta Cercial da Bairrada em solos argilo-calcários. Nos solos arenosos, gosto da casta Maria Gomes e, sobretudo, da Sercialinho, casta da qual sou o único produtor a nível mundial, por herança de meu pai João Pato que a plantou há 40 anos na Quinta do Ribeirinho. 

Qual foi o vinho nacional que bebeu que mais o impressionou?
Um Tinto Cão feito pelo João Nicolau de Almeida em 1982, na Quinta da Ervamoira. Julgo que nunca saiu para o mercado…Bebi-o em Esmoriz, em casa de um grande amigo português do Brasil – o seu pai havia emigrado por oposição a Salazar – e que nos deixou precocemente, o Armando Soares dos Reis.

E internacional? 
Bastantes… Desde um Hill of Grace Australiano, que era um excelente exemplo de um vinho do Novo Mundo que parecia um Cote Rotie; Champanhes como o Vieilles Vignes Françaises da Bollinger (de vinhedo em pé franco); um Richebourg de 1985 da DRC, um La Tache de 1948 que bebi com 50 anos em casa do nosso amigo José Antonio Dias Lopes (Revista Gula à época, e Gosto actualmente); um Domaine Leflaive Puligny Montrachet 1992 duma elegância que colocou de lado um Dom Pérignon 1996; um Sori Tildin  Barbaresco do Angelo Gaia do mítico ano de 1997, e outros tantos que ficava aqui o dia a dissertar à medida que me ia lembrando… 

Já começa a surgir algum associativismo entre os produtores de vinho, mas ainda há muito caminho a percorrer.  É uma questão de mentalidade? O que podemos fazer para que haja maior coesão?
A nova geração tem trazido não só uma melhoria enorme à enologia nacional, como tem congregado uniões impossiveis nos anos mais retrasados. Um bom exemplo são os Baga Friends que resultaram de uma união de interesses da Filipa Pato, minha filha, e do produtor Mário Sergio. Na minha geração seria impossível!

Temos saído em diversas publicações internacionais, Portugal agora está na moda. Mas como é que acha que os mercados internacionais realmente nos vêm? Os consumidores já nos começam a conhecer melhor?  E a crítica especializada?
Começo pelo fim dizendo que a crítica especializada já nos olha como um país produtor de vinhos de excelência há algumas décadas. No entanto, essa mensagem nunca chegou aos consumidores, porque os vinhos portugueses sempre se afirmaram pelo seu preço baixo, o que não dá confiança de qualidade aos consumidores / conhecedores internacionais. Só nos ultimos anos é que a promoção portuguesa se virou para a venda da nossa riqueza que é a enorme diversidade dos vinhos nacionais devido à enorme quantidade de castas, solos, climas, pessoas e uma longuíssima história. Os sommeliers internacionais começam a descobrir a nossa riqueza diferenciadora, daí só agora começarmos a melhorar a imagem do vinho português e do seu preço. A grande obra dos produtores lusos é a de se afirmarem nos países que pagam um valor muito mais elevado do que  o mercado nacional, e isso faz-se com os sommeliers de Inglaterra, Estados Unidos, Canadá, Brasil, Noruega, Japão, Coreia do Sul. Como os escanções recomendam a sua melhor escolha para surpreender os seus clientes – um trabalho fundamental de um sommelier, lá fora como cá – os vinhos por eles recomendados não estão sujeitos  ao tempo de permanência numa prateleira, e vendem-se pela qualidade e não pelo preço!

Não acha que os produtores portugueses se curvam um pouco demais
à crítica internacional? Ou seja, os nossos vinhos são bons, a sua qualidade inegável, não acha que a nossa atitude deveria ser um pouco mais segura? 
Infelizmente, muitos dos ‘vendedores-promotores’ dos vinhos portugueses por esse mundo fora não têm segurança no que estão a vender, e baixam o preço logo que o opositor lhes peça. Se fizessem a comparação com vinhos internacionais com o mesmo nível de qualidade, entenderiam, caso tivessem conhecimento do que é qualidade global, que mesmo vendendo caro, na sua ideia, estavam afinal a vender barato no contexto mundial. As apreciações dos reputados jornalistas que têm colocado os vinhos portugueses no topo das suas críticas servem para elevar o nosso orgulho, mas deveriam fazer-nos também interrogar sobre os preços a que vendemos esses vinhos  tão bons!

Dê um ou dois conselhos aos produtores para venderem melhor os seus vinhos
Devem adquirir uma visão da qualidade dos vinhos de referência a nivel mundial, provando-os sem reverência, mas também sem sobranceria. Aí começa o seu conhecimento para poder vender melhor os seus. Deixo, para terminar, a resposta que obtive há mais de 25 anos de um comprador inglês quando lhe respondia que os meus vinhos não eram muito caros comparados com os seus equivalentes franceses. Ele simplesmente me disse ,’sim é verdade, mas compramos em Portugal vinhos semelhantes e muito mais baratos’. Estão a ver porque Portugal é um país pobre? É subserviente e preguiçoso…..não se preocupa em saber a valia do que vende!

CAIXA
A família Pato produz vinho na Quinta do Ribeirinho desde, pelo menos, o séc. XVIII. Luís Pato é o herdeiro dessa tradição. Formou-se em Engenharia Química em 1971 e, desde a vindima de 1980, fica a gerir a quinta e faz o seu primeiro vinho, que ganha logo o primeiro lugar numa competição em Londres. É o começo de uma grande aventura. Luis Pato praticamente levou a cabo uma revolução na adega, equipando-a de forma a permitir a criação de vinhos com um estilo moderno, sem negligenciar o carácter das castas tradicionais. Substituiu as velhas cubas de castanho por cubas de inox e barricas de castanho português e carvalho francês. Também introduziu o controlo de temperatura das fermentações, assim como o desengace das uvas tintas, uma técnica muito pouco comum na altura. Mas Luís Pato não foi só um inovador nesta conversão. Adoptou uma atitude profissional como produtor, desenvolvendo uma estratégia de marketing dinâmica, que conseguiu captar a atenção dos mercados internacionais para os seus vinhos, bem conhecidos nos mercados europeu, americano e asiático, e sempre reconhecidos como um símbolo dos vinhos de quinta portugueses de grande qualidade.  


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